Espaço do Diário do Minho

Surpreendente Jesus de Marcos – 7. Quem é o verdadeiro discípulo de Cristo?

23 Out 2021
Carlos Nuno Vaz

O cego Bartimeu é apresentado como paradigma do discípulo ideal. Apesar dos três anúncios da Paixão, os discípulos continuavam a pensar que Cristo teria lugares de poder para lhes atribuir. A cegueira que os possui parece incurável. É então que Marcos 10, 46-52 apresenta a cura do cego que estava junto do caminho que seguia de Jericó para Jerusalém. Não se libertaram da ideia distorcida de messias que têm em mente. No seu íntimo, continuam a iludir-se, a esperar que as previsões ameaçadoras que Ele pronuncia sejam fruto de um momento de amargura e desconforto. Continuam intimamente convencidos de que, no fim, tudo acabará com um triunfo em que eles também participarão.

O relato do encontro de Bartimeu com Jesus é referido pelos 3 evangelistas sinópticos. Para Marcos, é uma parábola, uma alegoria da pessoa iluminada por Cristo. É a imagem do discípulo que, finalmente, abre os olhos à luz do Mestre e se decide a segui-lo pelo caminho. Para isso, começa por se dar conta de que leva uma vida sem sentido e decide procurar uma saída. Não se resigna às trevas em que está imerso. Supera a hesitação e os medos, o embaraço e a vergonha. Grita, pede ajuda, pois não quer permanecer no estado em que se encontra. Vence as barreiras que os próprios discípulos de Cristo lhe queriam colocar. Mas o seu grito chega a Jesus, e o Mestre não fica indiferente. Encarrega alguém que lhe transmita que se levante e se aproxime, pois o está a chamar. E o cego atira fora a capa, dá um salto e vai ao encontro daquele que lhe pode dar a vista e inseri-lo plenamente no caminho que Jesus está a seguir. São gestos improváveis, mas a cena tem um marcado valor simbólico e quer comunicar uma mensagem teológica.

A capa era considerada, em Israel, como o único bem que o pobre possuía (Cf. Ex 22,26). O gesto de a abandonar e às poucas esmolas que nela tinham caído indica o desapego completo, decidido e radical da condição em que viveu até encontrar Jesus. A vida que levou até àquele momento já não lhe interessa. Atirar com o manto é um gesto que recorda o que os catecúmenos das comunidades de Marcos faziam no dia do próprio baptismo: lançavam fora a roupa velha, rejeitavam o que os impedia de correr atrás do Mestre. Era o sinal da renúncia à vida antiga, aos hábitos, aos comportamentos incompatíveis com as escolhas de quem foi iluminado por Cristo. (Cf. O Banquete de Palavra, ano B – Fernando Armellini, Paulinas, pp. 554-557).

O encontro com Cristo e com a sua luz deixam a pessoa numa condição que não é fácil. Bartimeu deve agora inventar uma vida completamente nova e partir para uma aventura que se apresenta difícil e arriscada, pois quem se aproxima de Cristo e O segue no caminho não deve criar a ilusão de encontrar uma vida fácil e cómoda. A experiência de Bartimeu ensina que é árduo o caminho de quem acolheu a Luz verdadeira. Este caminho obriga a rever hábitos, comportamentos, amizades, e exige que sejam geridos de forma radicalmente nova a o tempo, a vida e os bens.

O gesto de tirar o manto ganha ainda mais relevo se tivermos em conta que, no Antigo Testamento, o manto se identifica com a pessoa. Basta pensar no caso do profeta Aías que rasga o manto em doze partes. Dez partes representavam o reino de Israel e duas o de Judá (I Re 11, 29-32). Ou Elias entregando o seu manto a Eliseu. E o próprio Jesus que, na última Ceia, antes de lavar os pés aos discípulos, tira o manto para o recuperar depois. (Jn 13, 4-12) O gesto do cego simboliza a mudança radical que o chamamento de Cristo e o seu seguimento nele operam. Simboliza o primeiro passo a cumprir pelo discípulo de Jesus: renunciar à mundanidade, algo que não consegue realizar apenas com as suas próprias forças. Por isso o cego grita e pede auxílio ao Mestre, não se intimidando com a opinião contrária das pessoas.

O mendigo de Jericó é para Marcos um crente verdadeiro, porque alcançou a plena luminosidade da sua fé. Ela descansa na cruz que se está a preparar para Jesus e todos os seus seguidores.



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