Espaço do Diário do Minho

Vidas para além dos Protocolos

23 Out 2021
António Lima Martins

Avolumam-se (não sei se por percepção de uma maior acutilância dos media ou por uma nova tendencial realidade dos factos) o número de queixas e relatos de altas indevidas nas idas às urgências hospitalares, bem assim em sua defesa e umas quantas vezes, do desfraldar do que se diz ser o protocolo. Pouco interessa se no SNS, se no privado porque o problema não está nessa dicotomia, está na arte de agir bem, na prestação de cuidados de saúde dignos. E fala-se em altas indevidas por nos apercebermos em situações já sancionadas pela entidade reguladora da saúde ou outras entidades que se impunha um maior grau de cuidado e diligência num dado momento da decisão que poderia, não só ter evitado a repetição de actos médicos, mas também de consequências graves, algumas sem volta. O que bem podia ser, tão-só, uma tentativa de racionalização de camas e recursos, pode acabar por uma duplicação desnecessária, por vezes de forma dramática e irremediável. Para quem está vulnerável, o deparar-se com uma desmesurada importância para a alta rápida ou ser colocado em observações (muitas vezes sem exames de diagnóstico complementar) se estas significarem ficar só ali a ver no que acontece, é um drama para toda a comunidade e não só para aqueles que com isso convivem. Maior drama se o tal protocolo de intervenção médica é visto como fato à medida de todos. Bem sei, todos sabemos, que não podem fazer-se generalizações, tomar a parte pelo todo. Mas se temos que louvar tudo de bom que a medicina nos proporciona, os médicos nos podem prestar ou prestam, não se pode deixar de olhar para o erro, a omissão, o desconcerto, a desumanização e apontar, quando assim seja, o dedo acusador. Só apreendendo o que está bem e o que está mal, a sociedade evoluída pode progredir ainda mais. Não se pode evoluir na tecnologia e ciência e ignorar a evolução de valores de direito natural que a humanidade tem de comungar.

Podem ser casos de excepção, mas se o forem não nos abstenhamos de os apresentar, mais não seja para corrigir o que tem de ser corrigido. Não pode a sociedade nivelar por baixo as exigências do fazer bem. E é naquelas salas de uma urgência que ninguém quer entrar, mas que se entra as mais das vezes em desespero, em medo ou em incapacidade, que não é aceitável o que se vai ouvindo amiúde, seja na altura da alta, seja num qualquer momento posterior justificante: “estamos a cumprir ou cumprimos o protocolo”. Não é por estar num protocolo que, num dado caso ou tempo, tenhamos a resposta adequada.

Há vidas para além do protocolo! Uma assistência digna médica ou hospitalar não pode fechar-se em protocolos. Estes podem ser – e são – importantes para organização e definição orientadora, para concentrar orientações técnicas, para um maior grau de previsibilidade e assertividade nas decisões, mas não são a quinta essência da assistência. São o mínimo, um roteiro, mas não têm de ser o máximo. Formatar pessoas e profissionais para terem o protocolo como farol, sem abertura a um mar de outros horizontes e senso crítico para além deles é condenar à maquinação e à frigidez um sistema que se pretende o mais capaz e ter como trave mestra os maiores dos bens, a vida e a saúde. O protocolo pode ditar A, mas um dever sagrado de cuidar, de fazer tudo por direitos invioláveis, pode impor A mais B. Porque não estamos perante um qualquer sistema de piloto automático que não sai da rota, há que muitas vezes se sobrepor àquele e é nisso que nos distinguimos como seres humanos, no ir mais além. Viver-se com a obsessão de cumprir não mais do que protocolos é intolerável. Quando vamos a uma unidade hospitalar queremos ter esperança e fé, não só espiritual, mas no que a ciência nos traz. Não podemos estar com um receio exponenciado por uma qualquer alta protocolada que possa ser somente uma – não intencional claro está – realidade ficcionada por apressada ou descurada. Se há que seguir protocolos, não se sigam cega ou minimamente, conquanto a vida não é preto ou branco e não se expresse rude, friamente e sem mais, a quem se encontra, naturalmente, fragilizado e necessita um pouco mais. Para isso teríamos só máquinas!



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