Espaço do Diário do Minho

Memória e Esperança. Imaginar um mundo pós-pandemia

24 Out 2021
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Memória e esperança são duas palavras amplamente escutadas durante estes dias por causa de uma iniciativa que deseja homenagear, simultaneamente, os que “nesta pandemia morreram, sofreram e lutaram” e os que, “apesar da pandemia ou por causa dela, plantam, investigam, colhem, produzem, criam, servem, contemplam, encantam, informam, cuidam, ensinam, partilham”.

Memória e esperança são palavras com futuro. “A memória é também portadora de esperança para hoje, amanhã e depois”. Imaginar que mundo queremos após esta crise mundial de saúde pública é uma tarefa que não deve ser conduzida por poucos e, sobretudo, pelos que aproveitam todas as ocasiões em benefício próprio, acumulando privilégios e acentuando as desigualdades.

Sobre o que pode ser o futuro próximo, há já, todavia, um esforço reflexivo não desdenhável. Dez lições para um mundo pós-pandemia*, de Fareed Zakaria, autor de um conhecido programa da CNN sobre assuntos internacionais, difundido em Portugal pela RTP, é, como o título indica, uma prospecção do que pode suceder após e em consequência da crise mundial de saúde pública.

Mesmo quem não aprecie as lições não deixará de considerar a conclusão particularmente promissora. Ela inicia-se com a evocação de um episódio de um famoso filme, Lawrence da Arábia. O protagonista, interpretado por Peter O’Toole, convenceu um grupo de tribos árabes a desencadear um ataque surpresa ao Império Otomano, do qual pretendem tornar-se independentes. Lawrence, chefiando um bando destes guerreiros, atravessa o deserto em condições extraordinariamente adversas. Num certo momento, repara que um soldado, chamado Gasim, tinha ficado para trás por ter caído do camelo. Decide ir buscá-lo, mas um chefe árabe, Sherif Ali, interpretado por Omar Sharif, opõe-se. O futuro do soldado estava traçado, como o ajudante-de-campo garante: “Chegou a hora do Gasim. Está escrito”. Lawrence, todavia, não concorda e retorque: “Nada está escrito”.

Fareed Zakaria relembra o que a seguir se passou. O protagonista volta para trás, reconstituindo o caminho percorrido, enfrenta novas adversidades e encontra o soldado. Gasim está, como se esperaria, em péssimo estado, mas é salvo. Lawrence trá-lo para o acampamento onde é recebido como um herói. Quando Sherif Ali lhe oferece água, Lawrence, antes de matar a sede, repete a curta e acertada afirmação: “Nada está escrito”.

As Dez lições para um mundo pós-pandemia concluem-se com essa asserção. “Nada está escrito”. A sequência do episódio não é a mais auspiciosa, mas o que importa é que, como o autor sublinha, “as pessoas podem escolher a direcção que pretendem tomar, que pretendem que a sociedade e o mundo tomem”. Para Fareed Zakaria, ao contrário do que sucedeu em outras épocas, em que o rumo do mundo seguia rotas já delineadas, a pandemia impôs mudanças que podem agora “constituir o início de algo ou ser um mero sinal temporário”. De facto, “temos muitos futuros diante de nós”. O autor recenseia alguns dos caminhos possíveis, uns de acomodação, outros de ousadia, para rematar que, à semelhança do mundo melhor e mais pacífico que foi possível edificar sobre os escombros da II Guerra Mundial, “esta pandemia horrenda nos está a dar uma oportunidade de mudança e reforma”. Ela “abriu um caminho para um novo mundo. Está do nosso lado aproveitá-la ou desperdiça-la”. É verdade: “Nada está escrito”.

Que a memória e a esperança nos ajudem a escrever o que vem.

*Gradiva, 2020



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