Espaço do Diário do Minho

O contágio emocional do bocejar

24 Out 2021
M. Ribeiro Fernandes

1. Não vou falar de “sinodalidade”. Compreendo o uso histórico da palavra sinodal na História da Igreja, mas não gosto da palavra. Não gosto porque tenho medo que se fique por palavras do círculo fechado da Igreja e se mascare a realidade e a actualidade da mensagem. Dessa, sim, gosto e desejo vê-la nascer e crescer, como quem deseja a primavera. Prefiro que se use a linguagem de hoje, que todos percebem, embora respeite o valor do ontem da História. inho ho veao vinho velho. direito. Só palavras, para tudo ficar na mesma, não. O acto de fé é um processo de enamoramento e de juventude que pressupõe a adesão, a conversão e a dedicação. Haveremos de falar disso. Para não ser apenas mais uma palavra esquisita e de museu repetida a torto e a direito. Hoje, vamos falar de uma curiosidade viva, mas involuntária: bocejar.

Bocejar é um acto involuntário que, normalmente, está relacionado com a sensação de sono. Um sinal de que o organismo está a precisar de repousar. Funciona como uma válvula de escape em relação ao stress acumulado no corpo, nervos e músculos. O bocejar é contagiante, tanto no homem como em muitos mamíferos. Quem nunca reparou, por exemplo, como os macacos também fazem isso, em grupo? E mesmo o cão o faz quando vê o dono a bocejar… E bocejar porquê? Ainda não se sabem as razões fisiológicas do bocejar; mas, sabe-se que os humanos bocejam mais quando o bocejador é alguém das suas relações pessoais. O bocejar acontece mais quando se tem sono ou de manhã, depois de acordar. Há, porém, outras situações em que o bocejar acontece, mesmo quando não se tem sono: em algumas situações de convívio, bocejar pode indiciar tédio, cansaço, aborrecimento, desinteresse… como a turma que adormecia quando o professor monocórdico e não empático começava a falar…

2. Uma peculiaridade do bocejar é ser contagioso, quando estamos em grupo e alguém começa a bocejar. Sobretudo quando se tata de amigos, parentes, esposa, marido, namorados… E a velocidade desse contágio é proporcional ao grau da relação de empatia que existir. Na prática social da nossa vida em grupo, procura-se disfarçar o bocejar na presença de outras porque isso pode ser interpretado como falta de civilidade, como tédio ou como presença desagradável. Se a pessoa que está connosco nos vê a bocejar pode ficar a pensar que a sua companhia nos está a ser desagradável.

3. Ivan Norscia, procurou investigar se este contágio tem alguma razão de ser cultural ou, pelo contrário, se é espontâneo e natural, independentemente do género, da nacionalidade, da cultura… E a conclusão foi que é geral, não depende de factores culturais. E que o factor que mais influencia o poder de contágio do bocejar é a qualidade de relacionamento afectivo que une o bocejante e o bocejado. Nem a nacionalidade, nem a idade, nem o sexo se mostraram relevantes quanto ao contágio do bocejo. Este estudo mostrou também que o contágio do bocejo é tanto maior e mais rápido quanto mais forte for a relação de empatia entre as duas pessoas. Isto leva-nos a concluir que o contágio do bocejo não é necessariamente um sinal automático de tédio do nosso organismo em relação à pessoa com quem estamos, mas a percepção de um sentimento de empatia que nos faz sentir bem. Em todo o caso, como nem todos sabem disso, o melhor é disfarçar essa reacção automática, se ocorrer, para não ser confundido com falta de civilidade.

4. Outra curiosidade é procurar entender porque é que, ao estar com pessoas com quem se tem uma relação agradável de empatia, pode acontecer uma reacção de bocejar. Penso que essa reacção se poderá entender por duas razões: por se tratar de pessoas cuja presença é calmante (como sabem, há pessoas cuja presença é calmante, qualidade muito importante na escolha de parceiros de vida), por eventualmente o organismo estar a sentir necessidade de repousar. Nesta reacção será muito importante o factor sensibilidade de cada um. Quer dizer que, nestes casos, o bocejar funciona automaticamente como uma reacção de bem-estar em função de uma proximidade agradável e não por reacção de tédio ou vontade de adormecer. Ninguém ia querer adormecer junto de alguém de quem gosta.



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