Espaço do Diário do Minho

Faltam professores (também) no assento etéreo

28 Out 2021
Carlos Mangas

Maior*,

é notícia nos órgãos de comunicação, a falta de professores no país. Mas o problema parece ser geral, pois, “lá, no assento etéreo onde subiste…” estão, constantemente, a requisitar os melhores e, desta vez – macacos – levaram um excelente.

Embora saiba que não vais mais corrigir-me vírgulas, nem explicar pela enésima vez, o porquê do “porque” e do “por que” serem juntos ou separados e quais as palavras que derivam do Latim, vou divagar um pouco sobre o muito que calcorreamos desde que descemos da nossa serra (do Gerês) para a nossa cidade (de Braga).

Eras jogador-dirigente no GD Gerês, quando eu vinha da faculdade e ia ver os jogos ao fim de semana. Um desses dias, em Vieira, contra o Ventosa, alegraste-te quando me viste: “Ainda bem que vieste. Falta-nos um. Jogas com o cartão do…” Joguei, mas ao intervalo tinha a GNR a chamar-me para confirmar o nome porque (está bem escrito?) os adversários queixaram-se. Mantivemos a serenidade, a falsa identidade, e o árbitro ajudou a que perdêssemos o jogo para não haver problemas. Acabei o curso e convidaste-me para treinar o Gerês. Posteriormente, fui eu a indicar-te para diretor de escalões de formação do SCB. Aceitaram, e pela tua qualidade, promoveram-te ao andebol sénior – à época na 1ª divisão – com Bolotsky e Cª a quem, às vezes, do teu bolso, colmatavas falhas de ordenado, adiantando algum.

Poucos saberão que durante anos, um professor de português coordenou todo o futsal do desporto escolar do CAE Braga com enorme maestria (vem do latim, magíster) – vês, ainda sei umas coisas!

Convidar-vos (a ti e à Glória) para padrinhos da minha filha foi o corolário do muito que nos unia. E o sucesso dos sketches de Natal Na ESVV? E quando nos jogos de futsal, na escola, tu – macaco – antecipadamente, abrias um bocadinho a cortina para o GR adversário ter o sol a encandeá-lo?

A necessidade de apoio mais efetivo aos filhos, fez-te deixar a nossa escola para uma EB mais próxima e a ESVV perdeu um professor de excelência.

De 2008 a 2014, levamos o SCB a inúmeras escolas da região. Ajudamos o clube a chegar (às crianças e) aos 30 mil sócios. Esse número mágico, apresentamo-lo em dia de jogo com os nossos vizinhos. Entre dezenas de jogos, estivemos juntos em Paris, Londres e Milão e vimos no Jamor a conquista da taça de Portugal frente ao FCP. A dupla mágoa de Dublin levaste-a contigo.

A nossa última obra (com o A. Cunha) foi o livro “FUT360L da Pereira à Pedreira” onde limpaste inúmeras vírgulas, manifestamente, mal colocadas. O título do livro também reflete o teu percurso.

Depois do Joãozinho e de todo o amor que lhe deram, orgulha-te também de teres ajudado a criar dois jovens estudantes e desportistas de excelência. O Luís no futebol e o Eduardinho no hóquei. Além da imensa qualidade, mostram que… não é preciso “bater” nos adversários, como o pai (tão bem) fazia. Nem quero imaginar o que seria, se tu tivesses stick quando jogavas.

Disse o poeta: “Os bons vi sempre passar no mundo, graves tormentos…”. Tu não eras só bom, eras EXCELENTE…por isso, imagina o que de ti, não diria Camões!

Deixaste um enorme vazio (apesar do Gerês ter estado cheio no dia do teu funeral) mas acredita, estas memórias acompanhar-me-ão até nos reunirmos novamente. Termino plagiando o António Cunha “perdi um amigo e coisa mais triste no mundo, não há”.

 

*Fernando Santos Silva, professor do Agrupamento de Escolas do Sá de Miranda



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