Espaço do Diário do Minho

Uma estatura invulgar

10 Nov 2021
Joaquim Barbosa

Conheço o Dr. Bernardo Reis desde o início da minha adolescência nos finais dos anos 70, pela amizade e admiração que o meu pai lhe tinha. O facto de eu e as minhas irmãs termos idades aproximadas com os seus dois filhos, originou imensos momentos de convívio entre as nossas famílias em casa uns dos outros e também muitas vezes em férias, em Esposende.

Os filhos têm sempre uma grande sensibilidade pela autenticidade das relações das pessoas que convivem com os seus pais. Percebem quem está por sentimentos bons e genuínos ou quem vem por outros interesses. Sempre tive pelo Dr. Bernardo Reis aquela estima que um miúdo tem pelos amigos dos pais: um grande respeito, curioso pelas conversas entre os dois, à vontade no convívio, associados a um grande prazer pelo encontro e um grande fascínio pelas suas viagens e conversas que ouvia entre África e Lisboa. Algumas vezes assisti à sua saída de casa para o aeroporto.

Em meados de 1979, quando o meu pai foi candidato à presidência da Câmara de Braga, confidenciou-me que, se não fosse a grande atividade profissional exercida do Dr. Bernardo Reis pelo país e no estrangeiro, o teria convidado para o acompanhar na sua candidatura, algo que aconteceu, por exemplo, com o Dr Machado Rodrigues, independente, reconhecidamente um dos grande gestores portugueses naquela época e que foi o número dois na sua lista.

Desde muito pequeno guardo a perceção do Dr. Bernardo Reis como uma pessoa com personalidade liderante, austera, discreta, exigente, trabalhadora, um homem de grande sentido humanista, amigo do amigo e de uma integridade pessoal exemplar.

Há muitos textos acessíveis sobre a sua sólida carreia profissional exercida em postos de muitos responsabilidade, em lugares muito sensíveis no mundo, de excelente qualidade técnica, de uma honestidade pessoal e profissional incontestável. Aliás, a melhor prova da veracidade desses textos é o carinho e admiração que tem pelo Dr. Bernardo Reis quem com ele conviveu, desde o trabalhador mais simples num lugar remoto em Angola até aos líderes de empresas mundiais ou a integrantes dos palácios do poder em vários países do mundo.

Assim, quando o Dr Bernardo Reis chegou à Misericórdia, já era aquilo que já deve ser quem ocupa lugares de grande responsabilidade pública, quer em entidades públicas, quer em órgãos do governo ou autarquias: alma de serviço público, grande experiência em gestão, saber o que custa a vida, conhecimentos pessoais e relações apropriadas, conhecimento do mundo, saber constituir equipas, experiência em projetos que correram bem e em projetos que correram mal, sabedoria em contornar os obstáculos, focar no objetivo final independente das circunstâncias de momento e ter a tenacidade, a determinação e a vontade inquebrantável de chegar ao destino desejado.

Se nos lugares de responsabilidade pública todas as pessoas tivessem o seu perfil, Portugal e vida dos portugueses, nos dias de hoje, seria um dos países mais avançados da Europa.

No campo das suas relações a nível de Estado que colocou, desinteressadamente, ao dispor dos lugares que ocupou, designadamente na Misericórdia de Braga e independentemente do que pessoalmente pensa sobre qualquer interveniente concreto, o Dr Bernardo Reis é um exemplo de sabedoria em lidar com vários governos, com políticos e decisores públicos de origem mais diversa, sendo o peso do seu prestígio pessoal determinante para ter acesso aos vários níveis do poder em prol do serviço aos outros.

Penso muitas vezes nos ensinamentos que retive de um homem de Estado exemplar que foi o Dr Fernando Alberto, governador civil de Braga e que já me referi nestes textos.

Dizia-me o Dr Fernando Alberto: quando ocupamos algum lugar e somos, de alguma maneira “importantes” pelo lugar que exercemos, isso de pouco vale. O que vale verdadeiramente é quando o lugar é importante e prestigiado porque somos nós que o ocupamos.

E acrescentava: no momento é que se toma posse de algum lugar, é frequente os cumprimentos, as palmadas nas costas, os incentivos. Isso pode confortar e servir de alento, mas, no entanto, o que verdadeiramente conta é a reação das pessoas quando saímos, quando deixamos de os exercer. Aí é que percebemos o que de verdadeiramente fizemos ou não de relevante na vida das pessoas.

A homenagem da Santa Casa da Misericórdia a um dos seus mais ilustres servidores consubstancia na íntegra estes dois sábios pensamentos, quer pela importância na vida desta importante instituição de Portugal, quer pelo legado que deixou na vida das pessoas, o empenho de um homem integro, bom e competente.



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