Espaço do Diário do Minho

Meditando sobre a parábola da ovelha perdida

18 Nov 2021
Carlos Aguiar Gomes

«…Qual de vós, tendo cem ovelhas, se perde uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, para ir procurar a que se tinha perdido até que a encontre? E tendo-a encontrado, a põe sobre os ombros todo contente…» ( Lc. 15, 4-6).

Um rebanho com 100 ovelhas já não é nada de despiciendo. Talvez lá encontrássemos ovinos muito diferentes entre si mas que o pastor saberia distinguir pela lã, sua cor e aspecto exterior ou balido. Talvez elas não apreciassem todas as mesmas ervas. Talvez nem todas pastassem igual quantidade, não produzissem a mesma quantidade de leite nem parissem ao mesmo tempo cordeiros iguais. O rebanho da parábola não era, de todo, uniforme. Mas o pastor conhecia-as todas! Queria-lhes igualmente. Protegia-as dos predadores com a mesma tenacidade com o seu cajado e cão de pastoreio. Amava-as na diferença. Todas as ovelhas, nas suas diferenças, seguiam o pastor e ele a todas protegia desviando-as para pastos mais verdejantes e abundantes. O pastor era sempre vigilante para não perder uma só e no final entrega-las todas, gordas, se possível, ao seu dono. Aquele caprichava em que o rebanho aumentasse com novas crias salvas e vivas.

Um dia, uma desapareceu. Na contagem que várias vezes ao dia ia fazendo, notou que uma se tinha desviado do grupo. Aflito e preocupado com a ovelha perdida, viu-a caminhar com um rumo diferente das outras 99. Se o dono do rebanho lhe tinha entregue à sua guarda 100 ovelhas, que diria aquele e como reagiria se faltasse uma? Uma ovelha só.

Diz o relato da parábola evangélica que o pastor, cuidadoso, honesto, preocupado e diligente, deixou seguir o rebanho e foi procurar aquela que se tinha desviado do grupo que lhe havido sido entregue. Chamou pelo seu nome (os pastores dão nome ao seu gado, mesmo ovino), olhou em todas as direcções, afastou-se e foi monte abaixo monte acima por veredas difíceis e cheias de ervas mais ou menos crescidas que lhe dificultavam detectá-la. E ia pensando no porquê deste abandono do rebanho daquela ovelha. Seria o pasto que não lhe agradaria? Seria o local por onde andava pastoreando pobre em alimentos de que ela mais gostava? No fundo, bem lá no fundo, o pastor, que era diligente, ia pensando e rezando para que aquela ovelha desgarrada aparecesse. Não tencionava abandoná-la. Nem lhe passava pela cabeça dar-lhe umas boas pauladas com o seu cajado. Muito menos queria que ela se afastasse ainda muito mais. Não queria perdê-la. Finalmente, encontrou a ovelha desgarrada. Que alegria imensa. Pegou nela, acariciou-a e pô-la aos ombros, carregando-a até junto das outras. Feliz. Afinal tinha valido a pena gastar assim o tempo à procura da ovelha perdida. Era um bom pastor. Era o bom pastor que arriscou e deu a sua vida não pelas noventa e nove que seguiam o seu caminho, mas por aquela. Não teria o pastor, o bom pastor, de dar contas das 100 ovelhas que lhe haviam sido entregues? Não se vingou da desgarrada. Não lhe fechou a porta do redil. Acarinhou-a e tentou compreender por que razão ela se tinha afastado. E deixou-a, talvez, escolher as ervas de que mais gostava. Não era um “direito” seu? É que esta ovelha comia o que as outras comiam, mas tinha preferências legítimas no sabor e aspecto das ervas disponíveis.

Há, nestes tempos de “pensamento Woke” pastores, mesmo os das almas, preocupados com as ovelhas que se afastam porque acham que o penso que lhes dão é medíocre, “rasca”, débil e pouco e, em vez de as procurarem e tentarem compreendê-las, as maltratam, escorraçam com toda a veemência, fecham-lhes os abrigos e nem querem ouvir falar das ovelhas que , lá terão a suas razões, se afastam, caluniando-as e dão-lhes pauladas com o cajado. Escorraçam-nas do rebanho sem misericórdia. Há pastores de almas que têm preferências. Incompreensíveis. As ovelhas, em direitos, são todas iguais mas há ovelhas “mais iguais do que outras”. Há ovelhas que se afastam porque gostam de um rito da Missa em detrimento de outros tantas vezes de “criação” volátil e sem “substância”. Se for rito tridentino, lá vai cacetada da forte que chega à proibição pura e dura. Inflexível, apesar de toda a liberdade concedida pelo Papa Emérito, felizmente ainda vivo, e que o Papa Francisco quase proibiu. Veja-se o que vai por aí! Bons pastores? Apreciam, apoiam e incentivam todas as “liberdades” quantas vezes heréticas (eu já vi! Muitas vezes!). Afinal, as ovelhas confiadas aos pastores não são nada iguais. E os pastores tomam partido. Que tristeza!



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