Espaço do Diário do Minho

Um cartão que já era

18 Nov 2021
António Costa

O governo português foi responsável pela criação do Cartão do Adepto (CA). Em bom rigor não se tratou de uma criação, mas de uma cópia de algo que não funcionou noutros países. Cientes da criatividade portuguesa e dos brandos costumes da sua população, os governantes legislaram e tentaram colocar em prática esse inútil cartão, mas a sua implantação, contra a vontade da maioria esmagadora dos seus destinatários, tinha tudo para dar errado. E deu, felizmente digo eu.

A fase de implementação do “tal cartão” teve início na temporada passada e correu bem, pela simples razão de não haver adeptos nos estádios, cujo regresso adensou a tensão e reforçou a sua total rejeição. Desde o início desta época apenas se conseguiu ver nos estádios uma zona vazia, que fora criada para acolher as “pessoas de bem”, numa autêntica segregação de adeptos.

Os estádios ganharam um brilho natural com o regresso das pessoas e essas não se fizeram rogadas nas mais variadas formas de tentar acabar com essa aberração, a que pomposamente chamaram Cartão do Adepto, como são exemplo os cânticos que traziam multas aos clubes, uma vez que por arrasto eram visadas as entidades que regem o futebol português. Pode dizer-se que o protesto foi generalizado, fazendo notar que os brandos costumes de quem aceita tudo já não são o que eram.

O assunto foi crescendo e transformou-se num monstro, que ameaçava endurecer nas formas de luta dos visados, que se diga, em abono da verdade, sempre foram pacíficas. Até que o tema foi debatido no parlamento, por iniciativa de um dos partidos da oposição, e foi notório o escasso conhecimento do primeiro-ministro sobre ele. Era o princípio do fim do cartão, pois o mesmo partido levaria a proposta ao hemiciclo, que votou a sua abolição, mostrando nessa altura a inutilidade de alguns partidos, devido à incapacidade de tomar uma posição, o que se lamenta, desde logo no principal partido da oposição, que se absteve, tal como vários deputados do partido do governo.

O fim do famigerado Cartão do Adepto transformou-o numa coisa cadavérica, que deverá ficar arrumado numa parte recôndita da nossa memória, com a preciosa ajuda do cientista português António Damásio, que tão bem estudou e estuda o cérebro humano. Um cartão que já era traduziu-se numa sensação de alívio geral, desaparecendo mais um obstáculo nos estádios e sendo criadas melhores condições para que os adeptos vão regressando paulatinamente aos recintos desportivos, espaços que com a pandemia se desabituaram de frequentar. “Soltem os fogos”, que há motivos para isso. Espero agora que as pessoas que tão bem rejeitaram o Cartão do Adepto melhorem os seus comportamentos, permitindo dessa forma que ir aos estádios deixe de ser uma aventura perigosa, a bem de todos.

Dentro do retângulo de jogo, o SC Braga recebe este sábado o Santa Clara, em mais uma etapa do caminho da defesa do título conquistado na temporada passada. Sobre esta competição, a definição do preço dos bilhetes é feita pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que permite a sua alteração desde que exista acordo dos dois clubes envolvidos em cada jogo. Como forma de chamar mais gente, o clube bracarense propôs o preço unitário de cinco euros, o que foi rejeitado pelo adversário açoriano. Ora, esta não é certamente a maneira de fazer regressar o público aos estádios e lamento profundamente que este seja mais um contributo negativo que lesa o futebol.



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