Vídeo: Vídeo Luísa Teresa Ribeiro. Fotos Nuno Ferreira.

Turismo do Porto e Norte realizou ação promocional com operadores internacionais.

Luísa Teresa Ribeiro
29 Nov 2021

O Ano Santo Jacobeu 2021-22 convida a percorrer os Caminhos de Santiago, importantes rotas de peregrinação que aliam fé, cultura e descoberta. Mesmo que vá acompanhado, cada peregrino fará inevitavelmente o seu caminho, numa experiência pessoal única.

Os Caminhos de Santiago são um importante atrativo da região, que o Turismo do Porto e Norte de Portugal quer promover para atrair visitantes, especialmente em pleno Ano Santo Jacobeu 2021-22.

Para divulgar este produto turístico no mercado internacional, a entidade regional realizou um percurso para operadores turísticos e jornalistas especializados nos Caminhos de Santiago com paragens em alguns pontos emblemáticos desta rota de peregrinação.

A viagem começou no Porto e Vila Nova de Gaia e logo com uma imagem de luxo: no Cais de Gaia e posteriormente no Jardim do Morro a olhar para o Porto.

A aventura gastronómica arranca n’O Bacalhoeiro, na marginal de Gaia, em que o vereador Dário Silva, o responsável pelos serviços de Turismo de Gaia, Eurico Moreno, e o historiador da Câmara do Porto Manuel Araújo fazem as honras da casa.

Segue-se um passeio até à Sé do Porto, edifício de estrutura romano-gótica, dos séculos XII e XIII, que foi alvo de grandes remodelações no período barroco (séculos XVII-XVIII). Se o templo se afirma como um dos mais importantes a nível nacional pelo seu todo, a verdade é que elementos como a rosácea, o claustro ou galilé lateral são imagens que correm mundo.

E porque esta visita se centra nos Caminhos de Santiago não poderia faltar a fotografia de grupo junto ao marco que indica a direção para Compostela, ali colocado no passado dia 28 de setembro, aquando da apresentação do “Xacobeo” no Porto.

Ainda na Invicta, o grupo visitou a Loja Interativa de Turismo “Porto  Welcome Center”, espaço de 450 metros quadrados onde é possível encontrar informação sobre os 86 municípios da região e onde Maria João Dias deu as boas-vindas à comitiva.

A próxima etapa leva o grupo até Matosinhos, à descoberta da história associada ao ícone mais famoso dos Caminhos de Santiago – a vieira –, com uma paragem Loja Interativa de Turismo, com João Costa a receber os visitantes.

Neste Ano Santo Jacobeu, as fachadas dos postos de turismo de Matosinhos e de Leça da Palmeira estão pintadas com vieiras, precisamente para lembrar um milagre de Santiago que terá ocorrido na praia de Matosinhos.

Conta-se que, no ano 44 d.C., um importante senhor romano chamado  Cayo Carpo escolheu o areal a sul da foz do rio Leça para casar. Durante a festa, o noivo terá proposto um desafio aos convidados: entrar a cavalo mar adentro, ganhando quem conseguisse ir mais longe. Nesta competição, o cavalo de Cayo Carpo avança sobre o mar em direção a um pequeno barco que se diz que estaria a transportar o corpo do Apóstolo Tiago Maior, morto na Palestina, para onde tinha voltado depois de difundir o Cristianismo na Península Ibérica. O senhor romano converteu-se e começou a dirigir-se para terra quando foi engolido pelo mar. Algum tempo depois, Cayo Carpo e o seu cavalo reaparecem sãos e salvos, mas cobertos de vieiras. Como tinham um aspeto “matizado”, o cavaleiro passou a ser conhecidos por “matizadinho”. De acordo com a lenda, foi a partir desta designação que surgiu o topónimo Matosinhos.

Depois, o grupo prossegue em direção ao concelho de Esposende, passando a noite no Hotel Axis Ofir. É aqui que o segundo dia da visita amanhece com um magnífico sol a iluminar o azul do mar, criando a tentação de permanecer mais tempo.

Como há caminho pela frente, segue-se para a São Pedro de Rates, município da Póvoa de Varzim. Aqui, a comitiva érecebida pelo arqueólogo José Flores.

Diz a lenda que S. Pedro de Rates teria sido convertido ao Cristianismo por Santiago. Morto na sequência de um milagre, o seu corpo teria sido encontrado em Rates. Por este local passou D. Manuel I em peregrinação a Santiago de Compostela, na primeira metade do século XVI.

Neste antigo concelho destaca-se a igreja românica (séculos XI-XIII), com o seu o Núcleo Museológico, inaugurado 10 de julho de 2004, expondo o espólio dos trabalhos arqueológicos que documenta as várias fases desde o século VI até ao presente, o Pelourinho (século XVI) e a antiga Câmara (século XVIII).

Os principais elementos que definem a identidade cultural desta vila histórica foram sistematizados pelo Ecomuseu de Rates, num circuito de 8 quilómetros pela localidade. Na placa identificativa não faltam as siglas poveiras, lembrando esta forma de escrita rudimentar utilizada pela comunidade piscatória da Póvoa de Varzim.

Barcelos é a etapa seguinte. O arquiteto Cláudio Brochado e a técnica de turismo Anabela Gaspar recebem os visitantes, para lhes mostrarem a cidade, com destaque para a igreja matriz, cuja construção se iniciou na segunda metade do século XIV e é um dos expoentes máximos da arquitetura românica no Norte do país, e o Paço dos Condes de Barcelos, construído na primeira metade do século XV, por ordem de D. Afonso, 8.º Conde de Barcelos, 1.º Duque de Bragança, onde está instalado o Museu Arqueológico.

É aqui que está o cruzeiro medieval alusivo ao milagre de Santiago, que deu origem à lenda do Galo de Barcelos. Segundo esta lenda, os habitantes acusaram um galego que se dirigia para Santiago de Compostela de um crime. Clamando inocência, o peregrino pediu para ser levado à presença do juiz, que então se banqueteava. «É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem», afirmou o acusado, apontando para um galo assado que estava sobre a mesa. Ora, quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ergueu-se e cantou. Como forma de agradecimento por ter mantido a vida, o homem terá voltado a Barcelos para erguer o cruzeiro, que hoje testemunha a lenda que está na origem de um dos ícones mais conhecidos de Portugal: o Galo de Barcelos.

A visita incluiu a deslocação à Torre da Porta Nova ou Torre de Menagem, a única que resta das três principais portas da muralha, onde está instalado o Centro de Interpretação do Galo  e da Cidade de Barcelos. O topo da torre é um magnífico miradouro, podendo-se ver todo o centro histórico, o rio Cávado e o Monte da Franqueira.

A visita à “cidade do galo” sófica completa com o almoço, no restaurante Túnel dos Sabores.

Segue-se Ponte de Lima, com Nuno Brandão a falar do centro histórico da localidade a quem a rainha D. Teresa outorgou, em 4 de março de 1125, o foral que transformou em vila o lugar de Ponte. O grupo visitou a TURIHAB – Associação de Turismo de Habitação, sendo Francisco Calheiros e Maria do Céu Sá Lima os anfitriões, e participou numa prova de vinhos no Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde.

No passeio pela vila não faltou a travessia da famosa ponte sobre o rio Lima, que é, afinal, um conjunto formado por duas pontes – um troço medieval, de maior dimensão, e o que resta da ponte romana –, com o sol já a sumir-se no horizonte, deixando o céu tingido com um belo matiz de tons amarelados e rosados.

O grupo passou ainda pela Casa da Terra, localizada na antiga Cadeia das Mulheres de Ponte de Lima, que é uma autêntica montra dos produtos limianos, onde para além de comer é possível encontrar vinho dos produtores locais, compotas, doces ou artesanato. As obras de arte Madalena Martins, com chouriços artificiais feitos em estabelecimentos prisionais, surpreendem os visitantes.

Com o tempo a correr veloz, chega a noite e a deslocação para o Hotel Minho, em Vila Nova de Cerveira, onde a comitiva jantou com o presidente do Turismo do Porto e Norte, Luís Pedro Martins, e os autarcas de Vila Nova de Cerveira, Rui Teixeira, e de Valença, José Manuel Carpinteira, no restaurante Dom Júlio.

O terceiro dia traz a última etapa em solo português, sob a orientação de Nuno Ferreira, do Turismo do Porto e Norte, e da A.N.E. Tours – Agência de Viagens e Turismo. Sai-se do hotel a contragosto, a pensar que se terá de voltar para experimentar o Spa e explorar as valências que a unidade hoteleira disponibiliza.

Segue-se para Valença, onde José Manuel Carpinteira e Isilda Salvador guiam os operadores turísticos e os jornalistas pela Fortaleza, uma das principais fortificações militares da Europa, com cerca de 5 quilómetros de perímetro amuralhado e um sistema defensivo com 10 baluartes, edificada nos séculos XVII e XVIII.

Ponto de encontro dos Caminhos de Santiago, Valença convida a percorrer as suas ruas históricas, repletas de lojas, muito procuradas por espanhóis, e a desfrutar da gastronomia local.

Imperdível é também a paisagem, com vista para Tui, com que Valença constituiu uma eurocidade, e para a ponte internacional rodo-ferroviária, conhecida por Ponte Eiffel, com 318 metros de comprimento sobre o rio Minho, projetada pelo arquiteto espanhol Pelayo Mancebo Agreda e inaugurada a 25 de março de 1886.

É precisamente para a ponte que o grupo se dirige, atravessando-a pé. No meio, junto à placa que marca a fronteira entre Portugal e Espanha, ainda se vislumbram os pés e as setas que indicam o Caminho de Santiago.

Fazendo jus ao lema “dois países, um destino”, continua-se em território espanhol porque ainda há muito Caminho para percorrer até Santiago de Compostela. Ultreia!

 

Caminhos de Santiago são fator de dinamização da economia

Há quem percorra os Caminhos de Santiago movido pela fé, pelo património que encontra à medida que avança em direção à cidade do Apóstolo, pelo desejo de superação, pela busca interior, para acompanhar familiares e amigos ou por simples curiosidade. Há quem vá a pé, de bicicleta, a cavalo ou até com um carro de apoio com motorista para fazer “batota” nos momentos em que as pernas já não aguentam. Há quem prefira ficar em albergues, enquanto outros escolhem hotéis com mais ou menos luxo. Há quem o faça de mochila às costas e quem despache as malas para os locais de alojamento através de empresas especializadas. Há quem se alimente de sandes, mas também há quem aproveite para fazer um roteiro gastronómico. Os Caminhos de Santiago são assim mesmo, tão diversos nos percursos como na forma como cada um decide fazê-los, transformando-os numa experiência pessoal única e irrepetível. Cada Caminho é um caminho.

Também foi assim nestes “retalhos” do Caminho de Santiago, feitos com um grupo de operadores turísticos e jornalistas oriundos de Espanha, Austrália, Luxemburgo e Reino Unido, entre 3 e 5 de novembro, numa iniciativa promovida pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal e pela Fairway 2021, feira internacional dedicada especificamente aos Caminhos de Santiago. É que se há quem percorra os Caminhos como peregrino, também há quem trabalhe e ganhe a vida com os negócios que se criam em torno destas rotas que atraem milhares de pessoas, sendo estes trajetos um importante fator de dinamização da economia.

Com a pandemia, a circulação praticamente parou, indicando os dados oficiais que em fevereiro chegaram a Santiago de Compostela 16 peregrinos. Entretanto, com o amainar da crise sanitária e o levantamento das medidas restritivas, até ao fim de outubro, superando as expectativas, 170 mil peregrinos pediram a Compostela, documento emitido pela Oficina do Peregrino que certifica que se fez a peregrinação, o que significa que terão chegado à cidade 220 mil pessoas, tendo em conta que existe a estimativa de que há um grupo de 30 por cento que não pede este certificado. Antes da Covid-19, o Caminho Português era o que mais crescia e nesta fase de regresso progressivo à “normalidade” já contribuiu com 40 mil pessoas para os dados de peregrinos.

Com a reabertura mundial do turismo, cada destino procurar mostrar o que de melhor tem para oferecer. Por isso, ciente da importância estratégica dos Caminhos Portugueses de Santiago no Norte de Portugal e na Galiza/Espanha, como principal mercado emissor de turistas para a região, a entidade regional de turismo convidou operadores internacionais a verem no terreno o que os visitantes podem encontrar tanto a nível de traçados, como de recursos de apoio, tais como hotéis e restaurantes.

A iniciativa envolveu os municípios de Vila Nova de Gaia, Porto, Matosinhos, Póvoa de Varzim, Barcelos, Ponte de Lima e Vila Nova de Cerveira e Valença, tendo decorrido no âmbito do projeto “Facendo_Caminho”, financiado com fundos europeus do Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal.

Esta foi a primeira de várias ações que vão decorrer no território do Porto e Norte de Portugal, com o objetivo de abranger mais concelhos e Caminhos.

Trabalhando precisamente em articulação com os municípios e agentes locais no sentido de criar as melhores condições para receber os visitantes e potenciar este ativo turístico, a entidade regional tem insistido na importância da certificação dos traçados que atravessam a região, tendo já apresentado à Comissão de Certificação o dossiê relativo ao Caminho Português da Costa.

    

Continuam, entretanto, os processos relativos aos caminhos Central, Minhoto Ribeiro e de Torres.

O Caminho Português de Santiago Interior, com uma extensão de 214 quilómetros, passando por oito municípios, entre Viseu e Chaves, foi certificado no passado dia 19 de outubro, na sequência de uma candidatura liderada pela Federação Portuguesa do Caminho de Santiago. Este torna-se, assim, no segundo traçado certificado, juntando-se ao Caminho Português de Santiago Central – Alentejo e Ribatejo, que tinha sido certificado em março.

Com este trabalho, Portugal procura criar condições para afirmar os seus caminhos a nível mundial. Declarado Primeiro Itinerário Cultural Europeu pelo Conselho da Europa, em 1987, as partes espanhola e francesa já foram classificadas como património da humanidade, respetivamente em 1993 e 1998, tendo o Eixo Atlântico começado a trabalhar no sentido de poder haver a  candidatura do Caminho Português.  Recorde-se que a UNESCO declarou Santiago de Compostela Património Cultural da Humanidade em 1985.

 

Ano Santo prolonga-se em tempo de pandemia

Devido às circunstâncias excecionais provocadas pela pandemia de Covid-19, este Ano Santo Jacobeu – o 120.º da história – é especial, prolongando-se por 2022.

Em 1122, o Papa Calisto II instituiu o  Ano Santo  Jacobeu cada vez que a festividade de Santiago, dia 25 de julho, se celebrar a um domingo.

Em 1179, o Papa Alexandre III outorgou a indulgência plenária a quem peregrinasse até Santiago de Compostela nessas datas.

Estes foram fatores que reforçaram a afirmação de Santiago de Compostela como centro de peregrinação e dos Caminhos de Santiago como elementos de união transfronteiriça.

A  história  remonta ao século IX, provavelmente a 813, quando o bispo de Iria Flávia, Teodomiro, identificou um túmulo como sendo do Apóstolo Tiago Maior.

O prelado tinha sido alertado por Pelágio, que terá visto uma estrela pousada no bosque Libredón, no local onde foi encontrado o sepulcro.

A existência do sepulcro do Apóstolo Santiago foi reconhecida pelo rei Afonso II, iniciando a afirmação deste local como centro de peregrinação.




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