Espaço do Diário do Minho

Notas pouco soltas sobre o serviço público de televisão

15 Jan 2022
Manuel Antunes da Cunha

Escrevia Emile Zola, a 24 de novembro de 1888, “no que diz respeito ao jornalismo atual, a minha única inquietude é esse estado de excitação nervosa em que coloca a Nação. (…) É um facto social. Basta olhar hoje para a importância desmedida que toma o mais pequeno facto. Centenas de jornais publicam-no, comentam-no, exageram-no, em simultâneo. Durante uma semana, não se fala de outra coisa. (…) Se não há assunto que apele à emoção, inventa-se. Outrora, os factos, mesmos os mais gravosos, eram bem menos comentados. Não emocionavam tanto. Não mergulhavam sistematicamente o país numa convulsão febril.” (Le Figaro).

Embora a reflexão do escritor e jornalista francês tenha 134 anos, não perdeu pitada de atualidade. Hoje, os canais de informação contínua e a sua corporação de comentadores residentes exacerbam ainda mais tal fenómeno. Por contágio, os espaços informativos da maioria dos canais passaram também eles a reger-se por esse “novo” ordenamento noticioso. O que mais importa é o espetáculo, o direto, a primeira mão. A reflexão, o médio/longo prazo e o distanciamento crítico ficam à soleira de muitas redações. Tal como outros conteúdos da grelha de programas, também a informação passou a medir-se exclusivamente pelas audiências vertidas na tabela de publicidade. Tudo está à venda. Até no serviço público de televisão.

Os animadores de talk-shows participam à publicitação dos mais variados produtos de consumo no espaço das emissões respetivas. Os participantes – mas também familiares seus – de um programa de talentos musicais são despudoradamente recrutados para vender relógios, telemóveis ou automóveis, numa encenação digna dos piores filmes de série B. É verdade que num país em que as marcas impõem fragmentos de diálogos e tipologias de personagens em enredos de telenovelas, já estamos habituados a ser tratados não como cidadãos com direito à informação, lazer e conhecimento, mas como alvos de um marketing cada vez mais intrusivo. O serviço público tem por obrigação ser diferente, a começar pela informação. Verdade seja dita, é preciso que lhe sejam dadas condições mínimas para o exercício da sua missão. A informação de qualidade é primordial para a sobrevivência das nossas democracias, mas tem um preço.

Na passada quinta-feira, assisti ao jornal da noite do principal canal público francês (France 2). Foram menos de 40 minutos, um terço dos quais dedicado à pandemia, com referências cirúrgicas às urgências e aos recém-vacinados, e reportagens aprofundadas sobre a greve dos professores primários e as empresas que vigiam ilegalmente os funcionários em teletrabalho. Sem espalhafatos, mesmo num dia com mais de 300 000 contaminados. Outro terço centrou-se em temáticas nacionais e um último foi dedicado à atualidade além-fronteiras, com destaque para a condenação de um coronel sírio à prisão perpétua por crimes contra a humanidade (Alemanha) e o fracasso de uma experiência de agricultura 100% biológica (Sri Lanka). Por mais incrível que pareça, não apareceu o Presidente da República, o primeiro-ministro ou qualquer ministro e houve apenas um direto com um jornalista no exterior, sem paráfrases e repetições.

Em “Sair da estrada” (Ed. Caminho, 2021), o repórter Paulo Dentinho narra alguns episódios das suas reportagens em cenários de conflito (Israel, Damasco, Paquistão, Líbia, Zagreb) e outros lugares onde se fez história nas últimas décadas. Em 2005, em plena Faixa de Gaza, num ambiente de tensão extrema, o jornalista da RTP liga para Lisboa a pedir autorização para alugar um período de edição ao posto local da Eurovisão e entrar em direto. Na sede, apenas um elemento da direção está disponível. Nem se digna responder. Manda dizer através da secretária: “É um assunto de desporto? Só trata de assuntos de desporto. É algum assunto de desporto?” (p. 61). Claro que temos jornalistas e programas de qualidade, mas enquanto não houver meios e vontade política para um verdadeiro serviço público, é o próprio sistema democrático que está em causa.



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